quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

CONTO - ANA

Ana

Gelava. Procurei um bar para tomar alguma bebida. Logo que entrei, um barman com a cara de Basil Rathbone, aquele ator britânico, famoso por interpretar Sherlock Holmes, nos anos 40, me olhou e perguntou o que iria de tomar. Pedi uma dose de conhaque e observei o movimento ao meu redor.

O lugar não estava cheio. Três mesas ocupadas preenchiam a área mais próxima ao balcão. Ao meu lado, um velho com uma longa barba branca, com idade próxima aos setenta anos. Brigava com o próprio corpo para se manter acordado e para não cair ao chão, com um copo cheio de uma bebida azul.

O barman trouxe conhaque. Serviu e, sem muitas palavras, virou-se para a pia, para enxugar alguns copos.

Logo após dar o primeiro gole no meu conhaque, algo mexeu comigo, bem ao fundo do bar, com muito mais força do que o álcool que eu acabara de ingerir, queimando minha garganta. Uma loira de cabelos muito claros e olhos verdes, levemente puxados. Esses olhos brilhavam a distância. Sua pele também era clara, o nariz, fino, e os lábios, voluptuosos. Os cabelos caíam até os ombros. Não eram muito longos. Usava um vestido preto, com um corte diferente, meio europeu; francês eu diria. Ela parecia olhar pra mim, mas de forma fria, sem esboçar expressão.

A cada gole na bebida, eu voltava e olhava rapidamente para ela. Sou muito tímido e não tenho tanta facilidade para me aproximar de uma mulher, ainda mais se ela não demonstrar nenhum interesse por mim. De qualquer modo, volta e meia me virava e lá estava ela, linda, mas, aparentemente, fria como a noite.

Tomei rapidamente meu primeiro copo de conhaque e pedi ao barman o segundo.

De repente, comecei a ter um pouco de esperança de que poderia, pelo menos, trocar umas palavras com aquela linda mulher. Parecia que aquele olhar frio me alcançava e até achei que ela chegou a sorrir pra mim. Impressão, como efeito da bebida, ou verdade?

Com a segunda dose, criei a coragem que não tinha, mandei a timidez para o espaço, me levantei e resolvi ir até a mesa onde a moça estava. A garota manteve a expressão inalterada. Olhei para ela e a cumprimentei.
– Olá.
– Olá.
– Desculpe chegar dessa maneira. Resolvi vir até aqui e falar com você.
Dessa vez, ainda que séria, ela demonstrou alguma simpatia.
– Você não é daqui. Nunca te vi.
– Não. Cheguei hoje. Vim a trabalho. Devo ficar mais uns dois dias por aqui. Como é você se chama?
– Ana.
– Muito prazer, Ana. Meu nome é Arthur.
– Por que não senta um pouco, Arthur? – ela sugeriu; no que aceitei.
– Desculpe se estou incomodando.
– Não está. É bom ter alguma companhia de vez em quando.
– Você não tem o costume de sair?
– Sim. Só não tenho amigos.
– As pessoas aqui não devem ser muito simpáticas.
– Não me envolvo muito com as pessoas daqui – ela falava em tom decidido.
Eu continuava achando Ana um pouco fria. Depois, pude perceber que na verdade havia tristeza em seu olhar. Por isso até me senti privilegiado por ela ter me deixado sentar para conversar.
– Você mora aqui perto? – perguntei.
– Moro a algumas ruas daqui. Que trabalho você veio fazer aqui?
– Sou advogado e estou numa espécie de tarefa familiar. Clientes meus têm terras por aqui e me deram a tarefa de vendê-las.
– Ah... vai vendê-las...
– É provável. Você quer comprá-las?
– Não, obrigado. Já moro em uma velha casa que me é suficiente.
– O que você faz, Ana?
– Hoje não faço mais nada. Vivo da minha propriedade. Só cuido do casarão onde moro. Durante as noites, dedico meu tempo a passear pelas ruas da cidade. Enquanto o frio vento noturno sopra, procuro por uma companhia, alguém com quem possa conversar e, quem sabe, me apaixonar.
Aquelas palavras me empolgaram. Belas palavras. “Enquanto o frio vento noturno sopra, procuro por uma companhia”.
– Quem sabe você não está perto de encontrar o que procura – insinuei, num raro momento de desembaraço. – O que tem de interessante pra fazer aqui?
– Não tem muita coisa. A natureza em volta da cidade é muito bonita: montanhas, cachoeiras. Há umas casas antigas, bem bonitas, ótimas para se ver, e, boa comida. Não muito mais do que isso. Ah, sim – emendou – há fantasmas na cidade. Você acredita em fantasmas?
Dei uma risada.
– Não. Nunca vi nenhum.
– Tenho certeza de que se andar pelas ruas aqui, de noite, verá vários.
– Você já viu algum?
– Muitos.
– Então por que não me apresenta a algum deles? – brinquei.
– Uma hora você pode acabar achando um. Acredite.
– Se você encontrar a paixão que disse que procurava, tenho certeza de que também vou ver um fantasma.
Vi que o copo de Ana estava vazio e lhe sugeri mais uma dose:
– Seu copo está vazio. O que você quer tomar?
– Obrigada. Eu já bebi o bastante.
– Tem certeza de que não quer beber nada mesmo? Que tal um suco ou refrigerante, uma bebida leve?
– Obrigada. Não quero nada mesmo.
– Vou te pedir licença um instante. Vou pegar só mais um copo pra mim.
Fui até o balcão e pedi mais uma dose.
Sério, o homem me serviu. Eu puxei brevemente a conversar com ele:
– Veja só: mal acabei de chegar e já fiz amizade com uma bela mulher.
O homem me observou sem falar. Olhava bem sério.
– Aquela mulher que me chamou para sentar.
– Mulher? – perguntou, me encarando com um ar de mistério. Nesse momento, achei que era mesmo o Sherlock Holmes do cinema.
– Sim, aquela loira – disse apontando pro fundo do bar.
Ele permaneceu parado, me observando com os olhos arregalados. Não lhe dei mais atenção. Paguei as bebidas, deixando uma boa gorjeta, e voltei para perto da minha companhia.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não. Obrigada. Na verdade, já é hora de ir embora.
Ao ouvir isso, fiquei preocupado. Não queria me separar de Ana em tão pouco tempo.
– Você tem que ir, mesmo? A conversa está tão boa...
– Preciso mesmo ir. Quem sabe outra noite a gente se encontra e conversa mais.
Sem desejar que ela fosse, mas não querendo parecer inconveniente, disse:
– Em outra noite não estarei mais aqui. Já terei ido embora.
Ana me encarou com complacência, como se estivesse com pena em me deixar só, e disse:
– Eu tenho que ir de qualquer jeito. Vou dar uma sugestão: por que você não me acompanha até em casa? A gente vai ter mais um tempo pra conversar.
Fiquei tão feliz com a idéia que, imediatamente, pus meu copo sobre a mesa e nem pensei em terminar de tomar minha bebida.
– Então vamos?
Ana me estendeu a mão delicadamente, sorrindo. Não podia acreditar que ela tinha se entusiasmado comigo e que queria mais um pouco de conversa. Saímos de braços dados. Do lado de fora, gelava e o vento me fez sentir frio até os ossos. A rua estava muito escura.
– Por esse lado – indicou Ana.
De mãos dadas, seguindo pela direita, pegamos uma rua mais escura ainda. Aproveitei-me do frio para puxar o corpo da mulher loira para junto do meu. No meio daquela rua, parei, trouxe seu rosto na direção do meu e nos beijamos. Era uma doce sensação tocar os lábios de Ana.
– Nesta noite fria, não poderia ter me acontecido algo melhor do que encontrar você – eu disse.
– Pode ter certeza que pra mim também – ela respondeu.
Notando certo aroma de perfume na rua, perguntei a ela:
– Este cheiro... são flores, não?
– Sim. São comuns por aqui. Elas só soltam esse perfume durante a noite.
Continuamos caminhando pela rua. Quanto mais avançávamos, apesar de eu estar adorando ter aquela mulher próxima a mim, comecei a achar o ambiente estranho. A rua não parecia mais simplesmente deserta e sim morta. Ia vendo casas cada vez mais velhas, algumas abandonadas, com suas janelas quebradas e apenas o escuro e o vazio no interior. Várias portas, pela aparência antiga e descuidada, demonstravam que não se abriam há muitos anos, talvez décadas.
– Essa deve ser a parte mais antiga da cidade, não?
– É sim. Quase ninguém mora mais por aqui. A maior parte desses moradores deixou a cidade há anos. Uma época uma doença terrível matou muita gente, principalmente por aqui onde estamos andando. Os que sobreviveram não quiseram se arriscar a permanecer aqui e pegar a doença.
– Você continuou.
– Bem... como eu disse pra você... isso foi há muito tempo.
A rua chegou ao fim e, para tornar o cenário ainda mais sinistro e desolador, passamos por um cemitério.
– Bem, concluo que foi pra cá que os que não sobreviveram vieram.
Ana não riu. Apenas falou:
– É um cemitério antigo. Existe há mais de cem anos
Andamos ainda por mais uns cinco minutos, depois do cemitério. Finalmente chegamos onde ela morava. De início fiquei perplexo. A casa era enorme, porém velha, com aspecto tão sinistro quanto as outras que havíamos visto. Poderia jurar, pelo estado daquela residência, que há muitos anos – muitos anos mesmo – nenhuma viva alma entrava ali. Claro que não fiz esse tipo de comentário para Ana, o que pareceria, no mínimo, indelicado. Tentei disfarçar essa impressão nada positiva.
– Você mora só?
– Sim. Faz muitos anos que moro sozinha nesta casa.
– Deve se sentir um pouco solitária, não?
– É verdade. Eu me sinto bastante solitária – ela falou isso não com um tom de melancolia, mas com certa sensualidade na voz. Imediatamente, puxou-me e me beijou. Àquela altura, eu nem ligava mais para a casa, se era velha ou não. Apenas queria ficar junto a Ana. A rua gelava.
– Nossa que frio! – reclamei.
– Vamos entrar, meu amor. Aposto que lá dentro vai estar bem quente. Quer entrar?
– Claro que sim. Não vou recusar o convite.
Ana sorriu para mim e me puxou pelo braço. Atravessamos um portão de ferro baqueado pelos anos; tanto que sua abertura produziu enorme ruído, resultado das juntas enferrujadas. Cruzamos o que outrora deveria ter sido um jardim e agora era dominado por mato. Espantava-me, acima de tudo, o fato de uma mulher tão linda como Ana não ter o menor apreço pelo local em que vivia, a ponto de, sequer, pedir para alguém cortar a grama. Logo pensei que ela poderia passar por dificuldades financeiras e não ter outra opção de onde viver.
O interior da casa não me causou menos impacto que o exterior. Não havia a menor dúvida de que me encontrava em um lugar muito antigo e praticamente abandonado de cuidados. A escuridão que dominava a sala não escondia os efeitos do tempo: bastante poeira, rachaduras na parede, teias de aranha e o péssimo estado de conservação dos móveis. Móveis, diga-se de passagem, fabricados em tempos remotos, com um design dos tempos da minha avó. Uma mesa enorme me chamou a atenção. Parecia feita de alguma madeira resistente, como carvalho; nada a ver com os móveis em estilo minimalista e tão frágeis que decoram os lares, hoje em dia. Voltei a jurar para mim mesmo que ninguém do mundo dos mortais teria entrado naquela casa por anos ou décadas.
– Não tenho luz elétrica aqui dentro. Vai se incomodar se usar uma vela para nos guiar? – perguntou Ana.
– De jeito nenhum. Faltou luz? – perguntei.
– Não dá pra te explicar agora – respondeu.
Antes que eu percebesse qualquer movimento, a bela mulher apareceu com uma vela já acesa na mão direita. A falta de luz reforçou minha convicção de que Ana deveria enfrentar alguma situação econômica não favorável. Imagine viver em uma casa sem eletricidade!
– Você já arrumou uma vela? – perguntei, impressionado.
– Sempre deixo uma, guardada em um lugar estratégico. Vamos para o meu quarto. É por aqui.

Ela disse isso apontando a vela na direção de uma escada. Subimos dois lances e, em seguida, caminhamos na direção de um corredor escuro. Não fosse a presença daquela linda mulher, eu jamais estaria ali.

Percorrer aquele corredor escuro, sombrio, eu diria fantasmagórico, produziu em mim uma sensação de medo. Por dentro, sentia pânico por algo que não podia explicar. Jamais tive medo de escuro ou de entrar em um lugar deserto, no entanto, apesar da satisfação que a companhia de Ana me trazia, um pavor ia se manifestando. Não queria que ela percebesse isso.
No corredor em que a escada terminava vi algo que me deixou confuso: um enorme quadro pendurado na parede, com o retrato pintado à maneira realista de uma mulher, que não era outra se não a própria Ana ou então, alguma ancestral absurdamente semelhante. Parei para admirar aquele retrato. O quadro mostrava o busto da mulher, que vestia uma roupa preta, provavelmente um vestido, a julgar pelos contornos.

– Quem é, sua bisavó? – perguntei, no que ouvi uma resposta que não me convenceu nem um pouco.
– Sou eu mesma.
– Está brincando. Não pode ser. Esse retrato deve ter décadas, talvez mais de um século.
– Acredite. Sou eu mesma.

Como havia tomado umas doses de bebida, até achei que pudesse estar fazendo confusão em relação à idade do quadro. Talvez fosse uma daquelas obras de artistas criadas em cima de um estilo antigo. Não tive mais tempo para divagar sobre a idade real do retrato. Ana logo me puxou pelo braço para o fim do corredor. Paramos em frente a uma enorme porta de madeira.

– Este é o meu quarto.

Abriu a porta e entramos. O aposento contrastava com o restante da casa. Não contrastava com a decoração, que se assemelhava ao estilo art déco daquele imóvel. Transparecia uma atmosfera diferente, com vida, o que destoava de todos os lugares por onde vínhamos passando desde que saímos do bar, como aquelas velhas casas abandonadas há alguns quarteirões. Não estava escuro e sim iluminado por um monte de castiçais com velas.

– Não é perigoso sair de casa e deixar um monte de velas acesas desse jeito? – perguntei. – Pode incendiar a casa.
– Não se preocupe. Moro aqui há muitos anos e a casa nunca pegou fogo. Gosto de deixar as velas acesas iluminando o quarto mesmo quando saio, para que as pessoas saibam que a casa não se encontra totalmente abandonada e que cedo ou tarde eu retornarei ao meu quarto.

Uma enorme cama ocupava o centro do quarto. Ela estava com uma colcha de cor vinho que não cobria completamente a cama e deixava perceber que, por debaixo, havia lençóis brancos. No canto esquerdo do quarto, uma penteadeira com um enorme espelho e objetos de adereço do sexo feminino, como alguns colares.

Toda essa percepção aconteceu muito rapidamente, pois Ana logo me fez esquecer de onde estava. Nem trocamos palavras. Puxei-a para perto de mim e lhe dei um beijo.

De olhos fechados, senti cada milímetro da pele dos seus lábios. Abraçamo-nos com força e logo caímos na enorme cama. Trocamos mais e mais beijos, enquanto eu segurava seu pescoço e deslizava meus dedos pelo seu cabelo loiro. O medo que eu sentira ao entrar na casa já acabara totalmente e eu nem mais pensava em nada a não ser naquela mulher.

Em questão de minutos já estávamos sem roupas e fazendo amor. “Meu amor, eu quero ser sua”, ela dizia enquanto fazíamos. “Você é minha”, eu respondia.

O prazer veio tão forte, de uma forma como eu nunca havia sentido. Fiquei bem perto de Ana, abraçando-a e sussurrando em seu ouvido: “Você é linda, Ana. Gostaria de ficar aqui para sempre, com você”. Ela abriu um sorriso por alguns segundos e disse: “Eu também, só que, infelizmente, isso não vai acontecer”.

O sorriso logo sumiu e seus olhos assumiram uma tristeza.
“Falando assim você me deixa triste”, eu disse. “Me lembra que logo vou ter que ir. Isso não quer dizer que não possa voltar”, emendei. “Pretendo ver você o mais rápido possível. Juro que quero. Estou apaixonado por você”.

Ana apenas olhava e ouvia minhas palavras. Chegou o rosto perto do meu e me deu um beijo, o mais longo de todos; talvez tenha durado mais de um minuto e me deixou sem fôlego. Continuamos a nos envolver com carícias não sei por quanto tempo. O tempo não me importava naquela circunstância. Pelo contrário, não queria que passasse. Só desejava permanecer junto a Ana, desfrutando do seu carinho.

Não percebi quando caí no sono e nem por quanto tempo. Poderiam ter se passado minutos ou talvez horas. Foi um sono profundo. Sonhei com Ana. Seu rosto aparecia como que flutuando à minha frente; apenas o seu rosto. Eu tentava tocá-lo e não conseguia. Então, caminhava por uma trilha escura; parecia um túnel. Via uma luz à distância. Aproximei-me até notar que uma silhueta humana aparecia no centro dessa luz. Ela estava de costas, mas pude perceber que era Ana. Coloquei as mãos sobre os seus ombros. Toquei o seu pescoço e senti que estava extremamente frio; gelado, para ser mais preciso.

– Algo errado, Ana? O que houve?

Ela virou-se para mim. Não era mais aquela linda mulher com quem eu fizera amor. Seu rosto estava completamente enrugado, como se ela tivesse mais de 100 anos. Era velha e não jovem, como antes. Seus cabelos estavam totalmente brancos e maltratados. Seus lindos e magnéticos olhos haviam desaparecido. As pálpebras se abriam, mas no interior delas enxergavam-se apenas pontos escuros.

– Ana, é você? – foram as únicas palavras que eu consegui dizer.
Ela estendeu os braços em minha direção, como se viesse me abraçar. Senti mão geladas sobre o meu pescoço e aquela mulher fantasmagórica à minha frente, que em mais nada lembrava a linda loira com quem me deitara, antes de adormecer. As mãos geladas comprimiram meu pescoço de tal modo que comecei a ficar sufocado. Não conseguia mais respirar.
Meu fôlego foi retomado quando abri os meus olhos. Livrara-me daquela criatura sinistra que tomara o lugar de Ana. Entretanto constatei que meu real espanto mal começara.
Não estava mais em uma confortável cama e sim sobre uma superfície fria que parecia mármore! Já vestia minhas roupas, o que não me impediu de sentir um tremendo frio. Claro, eu estava ao ar livre e zonzo o suficiente para levar alguns segundos para compreender a situação. Centenas de cruzes e lápides ao meu redor denunciavam o local na noite sombria, e, a superfície fria em que estava deitado, nada mais era do que um túmulo. Uma pequena fotografia, muito antiga e em preto e branco, provavelmente do início do século 20, aparecia por sobre a lápide. Apesar da idade do retrato, imediatamente reconheci, nele, o rosto de Ana. Por mais absurda que aquela situação pudesse parecer, não havia dúvidas: o rosto jovem, com um aspecto sereno, era o mesmo da mulher com quem eu estivera há poucas horas.
Schelisinger era o seu sobrenome, o que mostrava que ela deveria ter origem germânica ou de algum outro país europeu. A data de seu nascimento constava 15 de junho de 1880. A da sua morte, 21 de setembro de 1950. Ana morreu por volta dos 70 anos.
Não havia dúvidas de que eu vira um fantasma. Mais do que isso: beijara e até fizera amor com um. Ou teria eu me embriagado a ponto de perambular pelas ruas e cair ali, no cemitério? Definitivamente, não era possível. Não me encontrava tão entorpecido pelo álcool. Tinha bebido pouco e jamais tive alucinações em minha vida. Eu conhecera Ana naquele bar, horas antes, e saíra com ela pelas ruas da cidade. E também posso jurar pela minha alma que entrei naquela velha casa.
Saí correndo pelo cemitério. Impossível saber como eu entrei ali, mas o fato é que havia me metido muito adentro. Meu coração batia em disparada e o medo que me visitara antes agora voltava com força total e com uma real razão.
Foi a intuição que me fez chegar ao imenso portão do cemitério. Estava fechado. Não me saía da cabeça o que teria me colocado ali, exatamente sobre o túmulo de Ana. Eu nem a conhecia. Como teria ido parar justamente em sua sepultura? Seria uma brincadeira de mau gosto, de alguém? Deixei as perguntas de lado e pulei o portão, não sem rasgar a camisa e arranhar meu ombro.
Mais aliviado por sair daquele lugar, tive as dúvidas novamente martelando em minha cabeça. Por mais medo que sentisse, queria uma explicação. Andei na direção da casa. Quando cheguei, pude constatar que não se tratava de uma fantasia. De fato, eu passara por ali, horas antes. O local mantinha seu aspecto macabro. O silêncio reinava tão sepulcral quanto no cemitério e as trevas dominavam a velha residência.
O barulho de algo, atrás de mim, me fez dar um grito. Era apenas um gato preto, miando e correndo pela rua. Logo o felino sumiu no meio do mato. Eu não iria ficar ali, sozinho, naquela noite fria, no meio da escuridão, esperando que um fantasma aparecesse à janela e me chamasse para entrar. Voltei pelo mesmo caminho que fizera com Ana.
À volta, após um bom quarto de hora andando apressado, vi que passava pelo mesmo bar onde encontrara Ana. Ainda estava aberto. Só então me lembrei que possuía um relógio e olhei as horas. Não haviam se passado mais do que três horas desde que aquela sucessão de fatos sobrenaturais me envolveram. Entrei no local, já vazio. Apenas o homem do balcão permanecia, lavando louças e já se preparando para fechar. Ele não deixou de notar minha feição de pavor e o estado sujo das minhas roupas.
– Aconteceu alguma coisa, senhor? – disse ele, me olhando com um ar misterioso.
– Sim.
O fato de não conhecer aquele homem não me impediu de lhe narrar minha história, sem nenhum receio de que pudesse me tomar por um louco.
Tão logo citei o nome Ana, o homem arregalou os olhos e disse:
– Você a viu?
– Sim. Ela estava aqui comigo. Lembra que a mostrei? Você a conhece?
– Todos aqui conhecem a história dela.
O homem do bar me contou a história.
Ana era uma das mais belas mulheres da cidade, na virada do século 19 para o 20. Era de família rica e cortejada pelos homens da cidade. Apaixonou-se por um deles. Os dois viveram um romance forte; pelo menos ela acreditava nisso. Um dia, porém, esse homem apaixonou-se por outra e, bruscamente, sem dar maiores satisfações, abandonou Ana. Em pouco tempo, o homem e sua nova namorada casaram-se e mudaram-se definitivamente da cidade.
Ana nunca conseguiu aceitar a verdade cruel. Triste e desiludida, começou a enfrentar uma existência amarga. Jamais se apaixonou novamente por outro homem, mesmo com os esforços do pais em tentar tirá-la daquele estado. Das marcas da desilusão amorosa para a loucura não foram muitos passos. A jovem perdeu a sua consciência e, junto com ela, a juventude e a beleza. Os anos se passaram e veio a terrível peste que atacou a região, matando ou espantando a maior parte dos moradores daquela parte da cidade. Sua mãe pereceu em meio à epidemia.
O pai, paciente, cuidou da filha o quanto pôde. Quando ele morreu, Ana contava com quarenta anos. Alguns parentes tentaram cuidar da mulher, porém, incomodados pelo temperamento cada vez mais irrequieto e insano dela, afastaram-se.
O isolamento dominou a velhice de Ana. Onde havia uma linda mulher, tomou lugar uma velha louca, que andava pelas ruas à noite, gritando e procurando pelo seu amor perdido.
Com a aparência descuidada e doente, Ana vivia da caridade de algumas pessoas bondosas que de vez em quando lhe davam alguma ajuda. Durante as noites, apenas seu quarto iluminado dava algum sinal da presença de uma pessoa viva naquela casa. Quando morreu e a enterraram, seu aspecto físico era tão ruim que preferiram colocar, na lápide, uma foto dela, jovem e bonita, até porque em quase cinqüenta anos não deveria haver outra imagem da mulher.
Depois que Ana morreu, as pessoas da cidade começaram a dizer que seu corpo partira, mas que seu fantasma ficara naquela casa. Aliás, esse fantasma, segundo falavam, saía da casa à noite para assombrar a vizinhança e a cidade.
Muitos juraram ter visto a velha senhora correndo e gritando pelas ruas, como uma bruxa. No entanto, também havia aqueles que diziam ver uma linda mulher, loira, vagando pela escuridão ou até mesmo em alguns dos lugares mais agitados da cidade, pronta para seduzir os homens, como havia acontecido comigo.
Diziam que o espírito de Ana guardava profundo rancor e até mesmo ódio dos homens e que os levava para tirar suas vidas. Houve o relato de pelo menos três forasteiros que desapareceram para sempre após serem vistos com a misteriosa e fantasmagórica mulher para nunca mais serem encontrados. Talvez seus corpos estivessem presos na casa ou, quem sabe, tivessem sido levados a outro mundo. Outros dois homens foram encontrados na rua, perto de sua casa, mortos e com uma expressão de terror no rosto.
Essa era a história de Ana. Então, por que o seu fantasma me poupara? Por quê? Teria ela se apaixonado por mim?